
Título da matéria de Cathy Horyn para o The New York Times: What’s Wrong With Vogue. O artigo disseca todos os mitos que envolvem a publicação americana e aponta a sua sensível decadência. É inegável a relevância da revista ao registrar mudanças comportamentais e ditando outras tantas ao longo de toda a sua existência, principalmente a partir do comando da Anna Wintour. Adotando um tom muito mais jornalístico do que propriamente de edição de moda, ela soube abordar temas como política e esportes com inesperada profundidade. No entanto, observa-se que nos últimos tempos a previsibilidade e repetição tem tomado não só a Vogue americana, mas também a francesa, a italiana, a brasileira… Se por lá os leitores estão cansados de ver Raquel Zimmermann, Carol Trentini ou Gwyneth Paltrow nas capas mês após mês, por aqui não aguentamos mais o lindo rosto de Isabelli Fontana. Mas antes a questão fosse apenas essa; o problema levantado por Horyn atinge principalmente o conteúdo que, segundo ela, tem sofrido perda qualitativa, apresentando matérias com relativa superficialidade, sem ousadia nem imagens impactantes, que antes beiravam o polêmico. Mas é claro que a Vogue continua sendo a revista mais influente no mundo da moda, com produções bem-cuidadas, belíssimos editoriais e seleção de peças que irão tomar o closet de milhares de pessoas. Talvez por isso mesmo a aflição de ver o declínio daquela que é considerada “a” referência em publicações do gênero.
A leitura desse artigo fez-me lembrar de uma conversa que tive com a minha diretora de arte sobre o real público-alvo da nossa Vogue tupiniquim. Diante da absoluta imbecilidade de uma socialite retratada na revista numa certa edição, nos questionamos se de fato ocorria uma identificação com aquilo, se realmente esse tipo gente formava a maioria dos leitores Vogue. Mais tarde, felizmente constatei que não, que grande parte eram pessoas inteligentes que liam as nossas páginas com discernimento de quem sabe que, ao contrário do que dizem por aí, a Vogue não é uma bíblia, mas um guia do que há de mais novo no mercado de moda. Daí que é exigida da Vogue mais qualidade e conteúdo; não que ela já não os tenha mais do que a maioria das revistas semelhantes, mas diante da completa democratização da informação de moda (principalmente via internet), o público tem o olhar cada vez mais afinado. Logo, prefiro pensar que talvez não tenha sido o nível da Vogue que tenha caído, mas o dos leitores que tenha tido um considerável salto nos últimos tempos. De qualquer forma, terminei de ler este texto desafiado a trabalhar mais ainda para que o resultado mensal seja aprovado pelo nosso público. Afinal, teria coisa pior do que editar a revista tendo, no final, a indiferença como feedback dos leitores?